Perguntarão, os meus caros leitores, qual a relação entre hipermercados e a Medicina Geral e Familiar… Este meu pequeno “brainstorming” (tempestade cerebral) nasceu a partir do renovado debate sobre a abertura dos hipermercados ao Domingo e feriados. Eu compreendo o ponto de vista económico, mas tenho muitas dúvidas em relação a alguns dos argumentos invocados. Tenho muitas dúvidas que a abertura dos hipermercados ao Domingo dê um contributo significativo ao desenvolvimento económico do país e também não me parece que os portugueses sintam uma grande necessidade disso… Por exemplo, não observei qualquer agitação social aquando da última redução de horário.
Como médico de família, trabalho com os meus pacientes e com as suas (“minhas”) famílias…. Observo as suas vidas e acompanho-os ao longo do tempo: no preparar de uma nova vida, na gestação da mesma, no crescimento da família, na vida boa e má da família. Um facto indesmentível da realidade actual é a falta de tempo que as pessoas têm… Já não há tempo para estar uns com os outros. Não estando, também não se dialoga, não dialogando, também não se conhece… Já não há tempo para brincar com os filhos e os filhos também já não têm tempo para brincar uns com os outros. E depois, nascem os problemas: os “nervos”, as “dores de cabeça”, as insónias, as discussões, as tensões!
Independentemente dos aspectos religiosos, o descanso semanal vem de há longa data, de há muito tempo, mesmo antes de se ter descoberto o “stress”. Não me parece de todo exagero compará-lo ao descanso nocturno… O ser humano precisa dele. Queixamo-nos dos antidepressivos e dos calmantes que tantos tomam… Não é construindo hospitais de psiquiatria que se promove a saúde mental. A promoção da saúde mental e da saúde da família pode passar por decisões legislativas que efectivamente contribuam para isso. Promover um dia de descanso semanal que proporcione à família a oportunidade de estar e se encontrar pode ser uma excelente medida de promoção da saúde mental e com considerável benefício a baixo custo.