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terça-feira, 24 de maio de 2011

Medicina centrada em indicadores


Vem este meu texto a propósito de um excelente artigo de opinião publicado por Miguel Melo e Jaime Correia de Sousa na última edição da Revista Portuguesa de Clínica Geral:


O artigo levanta de uma forma bem estruturada alguns dos aspectos que urge resolver rapidamente na forma como as equipas de Cuidados de Saúde Primários estão a trabalhar em Portugal. Sim, porque esta discussão diz respeito a todas as equipas, quer aquelas que trabalham em Unidades de Saúde Familiares, quer as que estão em Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados. Indo ainda mais longe, como referem os autores, esta problemática acaba por se reflectir na própria população e na qualidade de cuidados que os nossos pacientes recebem.
O actual modelo de pagamento por desempenho, o actual conjunto de Indicadores de Desempenho e a metodologia seguida pelas entidades de contratualização promove  a "focalização e o afunilamento da prática clínica". Ou seja, promove uma prática clínica orientada para as metas que têm  que ser atingidas para cada indicador em detrimento de uma prática clínica centrada no paciente. Por outras palavras, neste momento, é significativo o risco de um paciente ver o seu médico de família muito preocupado com determinados procedimentos, por exemplo certos rastreios oncológicos em certos grupos etários, e menos preocupado em atender às queixas que realmente levaram o paciente à consulta.
Este tipo de problema não é um exclusivo nacional. Na verdade, ele é típico dos Sistemas de Saúde em que foram implementados sistemas de pagamento por desempenho. Há algumas semanas ouvi uma colega inglesa relatar a seguinte situação:
Uma paciente de 68 anos com dificuldades de mobilização por problemas osteoarticlulares recebeu em casa um convite para se deslocar ao Centro de Saúde para um exame periódico de saúde incluindo alguns rastreios. A filha foi ao Centro de Saúde e efectuou a seguinte pergunta ao médico: Esta consulta que aqui é proposta à minha mãe é no interesse de quem? Da minha mãe ou vosso?




quarta-feira, 5 de maio de 2010

A MGF e a Medicina Baseada em Indicadores... Uma reflexão



A Medicina Geral e Familiar (MGF) tem como características (entre outras competências; Wonca 2004), a prestação de cuidados centrados na pessoa, competência técnica de resolução de problemas, acessibilidade com satisfação dos cidadãos e profissionais.

Penso que poderão existir diversas formas de Organização de GRUPO (USF Modelo A/B/C ;UCSP;outras) de prestação de MGF com qualidade e geradoras de bons resultados.

O ideal seria que se avaliasse os resultados (de saúde, custo efectividade, etc) de forma a perceber se os Modelos Organizativos estão a gerar bons resultados, sem desvirtuar os princípios da MGF.

Os indicadores existentes (que têm servido de base de contratualização com as USF) são indicadores intermédios (do processo / surrogate endpoint) que poderão, ou não, traduzir outcomes/resultados favoráveis.

Existe necessidade de desenvolver investigação instrumental (aliás identificada na Agenda de Investigação Europeia MGF/ EGPRN) de forma a conseguir construir indicadores que de facto meçam o que se pretenda medir (validade), baseada na melhor evidência disponível.

Os indicadores espelham apenas uma parte da actividade duma USF, poderão ou não traduzir resultados favoráveis e poderão não estar baseados nas melhores evidências. Este facto deverá ser tido em conta na contratualização; é necessária uma certa postura de humildade e de abertura para afinar e corrigir estes processos de monitorização.

Por outro lado, as USF não deverão ficar com a sua actividade focada em indicadores, pois existe muito mais vida para além de indicadores. Este é um dos perigos do P4P (pay for performance): centrar a actividade em indicadores e dar menos importância a outros aspectos (outras necessidades de saúde).

Devemos evitar a Medicina Baseada em Indicadores, ie, MGF centrada em indicadores, alguns de validade questionável e não esquecer o essencial: a reforma dos CSP sem desvirtuar a prática da MGF com a qualidade que todos queremos.

Miguel Melo

USF Fanzeres Modelo B - ACES Gondomar

PS: Esta reflexão vem a propósito do Encontro de Vilamoura, nomeadamente a comunicação da MJ Ribas (projectar o futuro) e de outras mesas. Pretende ser um contributo positivo de quem tem contribuído para a melhoria da MGF.

Siglas:

MGF - Medicina Geral e Familiar

USF - Unidade de Saúde Familiar

UCSP - Unidade de Cuidados Personalizados

EGPRN - European General Practice Research Network


Nota: este texto, publicado aqui com a autorização do Dr. Miguel Melo, foi previamente publicado no forum MGFamiliar, no dia 24/03/2010.