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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Hipertensão Arterial - revolução no diagnóstico?

O NICE acaba de publicar uma revisão da sua orientação clínica para a abordagem da hipertensão arterial. Nesta nova edição, apresenta uma recomendação que vem mudar a forma como é efectuado o diagnóstico da hipertensão arterial. Uma mudança na prática clínica que se compreende, que é sustentada na evidência científica e que me parece bem-vinda.
Tradicionalmente, o diagnóstico da Hipertensão Arterial era efectuado pela medição repetida, em diferentes ocasiões, dos valores da pressão arterial. A partir de agora se o paciente apresentar valores superiores a 140/90 mmHg, recomenda-se a realização de um MAPA (Monitorização Ambulatória da Pressão Arterial).
Através desta medida, evita-se o diagnóstico desnecessário de pacientes que apresentam o efeito da bata branca (valores mais elevados da pressão arterial no consultório) e evitam-se os danos que daí poderiam advir: tratamentos desnecessários, consultas desnecessárias, efeitos secundários dos tratamentos, exames complementares de diagnóstico desnecessários.
Esta é uma recomendação sensata e que se adequa aos bons princípios da prevenção quaternária, em defesa da segurança do paciente. 


À atenção do Ministério da Saúde: justificar-se-á equipar as UCSPs/USFs com equipamentos de MAPA? O que será mais rentável: manter este exame através de serviços convencionados ou realizar este exame nas Unidades de Cuidados de Saúde Primários do SNS? 




A guideline original (em inglês) pode ser lida aqui: http://www.mgfamiliar.net/NICEHTA.pdf
Artigo relacionado: Cost-effectiveness of options for the diagnosis of high blood pressure in primary care: a modelling study





terça-feira, 24 de maio de 2011

Medicina centrada em indicadores


Vem este meu texto a propósito de um excelente artigo de opinião publicado por Miguel Melo e Jaime Correia de Sousa na última edição da Revista Portuguesa de Clínica Geral:


O artigo levanta de uma forma bem estruturada alguns dos aspectos que urge resolver rapidamente na forma como as equipas de Cuidados de Saúde Primários estão a trabalhar em Portugal. Sim, porque esta discussão diz respeito a todas as equipas, quer aquelas que trabalham em Unidades de Saúde Familiares, quer as que estão em Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados. Indo ainda mais longe, como referem os autores, esta problemática acaba por se reflectir na própria população e na qualidade de cuidados que os nossos pacientes recebem.
O actual modelo de pagamento por desempenho, o actual conjunto de Indicadores de Desempenho e a metodologia seguida pelas entidades de contratualização promove  a "focalização e o afunilamento da prática clínica". Ou seja, promove uma prática clínica orientada para as metas que têm  que ser atingidas para cada indicador em detrimento de uma prática clínica centrada no paciente. Por outras palavras, neste momento, é significativo o risco de um paciente ver o seu médico de família muito preocupado com determinados procedimentos, por exemplo certos rastreios oncológicos em certos grupos etários, e menos preocupado em atender às queixas que realmente levaram o paciente à consulta.
Este tipo de problema não é um exclusivo nacional. Na verdade, ele é típico dos Sistemas de Saúde em que foram implementados sistemas de pagamento por desempenho. Há algumas semanas ouvi uma colega inglesa relatar a seguinte situação:
Uma paciente de 68 anos com dificuldades de mobilização por problemas osteoarticlulares recebeu em casa um convite para se deslocar ao Centro de Saúde para um exame periódico de saúde incluindo alguns rastreios. A filha foi ao Centro de Saúde e efectuou a seguinte pergunta ao médico: Esta consulta que aqui é proposta à minha mãe é no interesse de quem? Da minha mãe ou vosso?




domingo, 8 de maio de 2011

A Saúde no Memorando de Entendimento com a Troika


Em Agosto de 2009, tive a honra de representar a APMCG num Congresso comemorativo do 20º aniversário do SUS (Sistema Único de Saúde, o "SNS" do Brasil). Na altura, em conversa com os colegas brasileiros senti que havia algum ressentimento em relação ao FMI... Consideravam eles que o FMI tinha sido o grande culpado pelo atraso no desenvolvimento de Sistemas de Saúde orientados para os Cuidados de Saúde Primários nos países da América do Sul. 
Contudo, sabemos que neste mundo, quase tudo pode evoluir e foi com alegria que li os parágrafos que se seguem no Memorando de Entendimento. Fiquei satisfeito por nele ser defendido um reforço dos Cuidados de Saúde Primários e a preocupação com uma boa acessibilidade aos mesmos pela população.


Primary care services
3.69. The Government proceeds with the reinforcement of primary care services so as to further reduce unnecessary visits to specialists and emergencies and to improve care coordination through:
i. increasing the number of USF (Unidades de Saúde Familiares) units contracting with regional authorities (ARSs) using a mix of salary and performance-related payments as currently the case. Make sure that the new system leads to reduction in costs and more effective provision; [Q3-2011]
ii. set-up a mechanism to guarantee the presence of family doctors in needed areas to induce a more even distribution of family doctors across the country. [Q4-2011]

Poderão ler o texto completo do Memorando aqui: http://www.box.net/shared/a88l22q4if