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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Exame periódico de saúde: controvérsia



Partilho neste post um texto escrito por um grupo de Médicos de Família a propósito de um artigo do jornal Público: Orientação sobre frequência de exames médicos gera protestos de especialistas


Concordo inteiramente com os colegas: mais do que critérios económicos, são critérios científicos que devem guiar as escolhas de exames complementares de diagnóstico nas chamadas "consultas de rotina" (tecnicamente: exame periódico de saúde). Na verdade, os exames médicos podem ter vantagens, mas também podem ter riscos e malefícios, sobretudo se aplicados mais frequentemente e em idades mais jovens do que o recomendado. Muitas vezes, o especialista em Medicina Geral e Familiar desempenha o papel de provedor do paciente, partilhando a informação sobre os benefícios e os riscos de determinados procedimentos para em conjunto se tomar a decisão. Na verdade, não é tanto uma "questão de poupar" (como se isso fosse mau), mas é mais uma questão de proteger a saúde do paciente evitando danos desnecessários que lhe podem ser causados por testes, exames, rastreios desnecessários... Mesmo que isso vá contra a corrente de uma certa opinião pública ou de outros especialistas...

O documento da USF Marginal referido no texto está disponível aqui.
O documento do ACES Lisboa Norte que deu origem ao artigo do Jornal Público está disponível aqui.


Eis o texto:
«O Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Norte (ACES-LN) divulgou junto dos seus profissionais um conjunto de recomendações sobre avaliação periódica de pessoas saudáveis. Esse documento foi objecto de críticas por parte de responsáveis de três prestigiadas organizações médicas portuguesas nas áreas da oncologia, cardiologia e diabetologia. Dessas críticas deu notícia o "Público" no dia 20 de Maio último (texto em anexo). Esses especialistas transmitem ainda a sua opinião quanto à população abrangida e periodicidade dos gestos propostos nessas recomendações. De um modo geral os referidos especialistas propõem intervenções que atingem mais pessoas e são executadas com maior frequência. Um deles diz compreender "que é preciso poupar"; outro sugere que na base das recomendações existem critérios "economicistas" e que aquelas terão sido escritas "numa perspectiva dos médicos de saúde pública, que são os que não vêem os doentes".

Acontece que o documento divulgado pelo ACES-LN é um trabalho realizado pelos médicos de família da USF Marginal, em Cascais, e por estes distribuído junto da população por eles servida. São médicos com actividade clínica diária, estão envolvidos em actividades formativas e de investigação e têm carreiras profissionais e académicas prestigiadas. As recomendações por eles redigidas e disseminadas no ACES-LN têm como base a melhor e mais robusta evidência científica disponível hoje. O mesmo não pode ser dito das recomendações dos três especialistas citados na notícia, aparentemente assentes na sua experiência pessoal e sem indícios de qualquer fundamentação.

Este fenómeno não é novo nem exclusivo de Portugal. Os especialistas de topo lidam com situações clínicas mais graves e complexas, o que os leva a endurecer a sua atitude na luta contra as doenças das suas áreas de especialização. As organizações que os representam tendem a propor mais exames, a mais pessoas e com menores intervalos entre as observações. Essa atitude, ainda que compreensível, não tem muitas vezes suporte científico consistente; pelo contrário, sabe-se que o excesso de exames resulta em aumentos por vezes dramáticos do número de pessoas erradamente diagnosticadas como tendo um problema de saúde; esses diagnósticos em excesso, conhecidos como falsos positivos, resultam em mais exames, quase sempre mais agressivos, em ansiedade escusada para as pessoas afectadas e, em algumas situações, em tratamentos de resultado no mínimo duvidoso. Fazer muitos exames e muitas vezes pode fazer mais mal que bem à saúde.

Ao contrário do que é sugerido pelos especialistas referidos na peça do Público, não são motivos económicos mas clínicos e técnicos que estão na base das recomendações efectuadas. Trata-se não de poupar dinheiro, mas de oferecer às pessoas o melhor que a ciência oferece, sem nunca se perder de vista que essa ciência tem limites. As referidas recomendações, repetimos, estão ancoradas no melhor conhecimento científico presente. Devem ser aplaudidas e disseminadas.

Armando Brito de Sá

Médico de família e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Jaime Correia de Sousa
Médico de família e professor da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho
José Augusto Simões
Médico de família e professor da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

Luís Filipe Gomes
Médico de família e professor do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina da Universidade do Algarve

Luís Rebelo

Médico de família e professor da Faculdade de Medicina de Universidade de Lisboa
Isabel Santos
Médica de família e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa 

Vasco A. J. Maria
Médico de família e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa»

terça-feira, 24 de maio de 2011

Medicina centrada em indicadores


Vem este meu texto a propósito de um excelente artigo de opinião publicado por Miguel Melo e Jaime Correia de Sousa na última edição da Revista Portuguesa de Clínica Geral:


O artigo levanta de uma forma bem estruturada alguns dos aspectos que urge resolver rapidamente na forma como as equipas de Cuidados de Saúde Primários estão a trabalhar em Portugal. Sim, porque esta discussão diz respeito a todas as equipas, quer aquelas que trabalham em Unidades de Saúde Familiares, quer as que estão em Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados. Indo ainda mais longe, como referem os autores, esta problemática acaba por se reflectir na própria população e na qualidade de cuidados que os nossos pacientes recebem.
O actual modelo de pagamento por desempenho, o actual conjunto de Indicadores de Desempenho e a metodologia seguida pelas entidades de contratualização promove  a "focalização e o afunilamento da prática clínica". Ou seja, promove uma prática clínica orientada para as metas que têm  que ser atingidas para cada indicador em detrimento de uma prática clínica centrada no paciente. Por outras palavras, neste momento, é significativo o risco de um paciente ver o seu médico de família muito preocupado com determinados procedimentos, por exemplo certos rastreios oncológicos em certos grupos etários, e menos preocupado em atender às queixas que realmente levaram o paciente à consulta.
Este tipo de problema não é um exclusivo nacional. Na verdade, ele é típico dos Sistemas de Saúde em que foram implementados sistemas de pagamento por desempenho. Há algumas semanas ouvi uma colega inglesa relatar a seguinte situação:
Uma paciente de 68 anos com dificuldades de mobilização por problemas osteoarticlulares recebeu em casa um convite para se deslocar ao Centro de Saúde para um exame periódico de saúde incluindo alguns rastreios. A filha foi ao Centro de Saúde e efectuou a seguinte pergunta ao médico: Esta consulta que aqui é proposta à minha mãe é no interesse de quem? Da minha mãe ou vosso?




domingo, 8 de maio de 2011

A Saúde no Memorando de Entendimento com a Troika


Em Agosto de 2009, tive a honra de representar a APMCG num Congresso comemorativo do 20º aniversário do SUS (Sistema Único de Saúde, o "SNS" do Brasil). Na altura, em conversa com os colegas brasileiros senti que havia algum ressentimento em relação ao FMI... Consideravam eles que o FMI tinha sido o grande culpado pelo atraso no desenvolvimento de Sistemas de Saúde orientados para os Cuidados de Saúde Primários nos países da América do Sul. 
Contudo, sabemos que neste mundo, quase tudo pode evoluir e foi com alegria que li os parágrafos que se seguem no Memorando de Entendimento. Fiquei satisfeito por nele ser defendido um reforço dos Cuidados de Saúde Primários e a preocupação com uma boa acessibilidade aos mesmos pela população.


Primary care services
3.69. The Government proceeds with the reinforcement of primary care services so as to further reduce unnecessary visits to specialists and emergencies and to improve care coordination through:
i. increasing the number of USF (Unidades de Saúde Familiares) units contracting with regional authorities (ARSs) using a mix of salary and performance-related payments as currently the case. Make sure that the new system leads to reduction in costs and more effective provision; [Q3-2011]
ii. set-up a mechanism to guarantee the presence of family doctors in needed areas to induce a more even distribution of family doctors across the country. [Q4-2011]

Poderão ler o texto completo do Memorando aqui: http://www.box.net/shared/a88l22q4if

domingo, 3 de outubro de 2010

Vídeo explica a Reforma do Sistema de Saúde dos EUA

A reforma do Sistema de Saúde dos EUA é extremamente complexa, até para os americanos! Para quem gostar do tema e desejar perceber como as coisas se vão passar, eis um vídeo que ajuda a compreender as alterações que vão permitir que uma parte significativa da população, até aqui sem cobertura, passem a ter acesso ao Sistema de Saúde dos EUA.

domingo, 18 de julho de 2010

Medicina Geral e Familiar - o lado humano e romântico :)

Se existisse um spot publicitário sobre a Medicina Geral e Familiar (MGF), então ele poderia ser assim, como este vídeo... Trata-se de um spot de minuto e meio que promove uma cadeia comercial. Passou no Reino Unido e deu muito que falar, pois tocou as pessoas, mexeu com elas.


Então, o que vejo nele que me faz pensar que ele seria um excelente spot publicitário sobre a MGF?


1. Vejo todo o ciclo vital. A MGF é a única especialidade médica que lida com todo o ciclo da vida do ser humano. Estamos presentes na vida de um novo ser ainda antes de ele ser concebido, acompanhamos a gravidez, a criança, o jovem, o adulto, o idoso, o luto...


2. A frase final: "Our lifelong commitment to you", ou seja "O nosso compromisso consigo ao longo da vida" é um excelente lema para a MGF. A continuidade de cuidados é uma das principais características desta especialidade médica. E o nosso compromisso é mesmo com a pessoa, com o ser humano. O médico de família não é especialista num órgão, num aparelho ou sistema, é especialista na pessoa.


3. A ternura, os laços, os afectos, a beleza da música que estão presentes neste spot... Pois é, o lado "familiar" da MGF e a visão holística dos nossos pacientes. Vemos a pessoa como um todo, como um ser que vive e se relaciona em sociedade...

Enfim, mais palavras para quê...



quarta-feira, 5 de maio de 2010

A MGF e a Medicina Baseada em Indicadores... Uma reflexão



A Medicina Geral e Familiar (MGF) tem como características (entre outras competências; Wonca 2004), a prestação de cuidados centrados na pessoa, competência técnica de resolução de problemas, acessibilidade com satisfação dos cidadãos e profissionais.

Penso que poderão existir diversas formas de Organização de GRUPO (USF Modelo A/B/C ;UCSP;outras) de prestação de MGF com qualidade e geradoras de bons resultados.

O ideal seria que se avaliasse os resultados (de saúde, custo efectividade, etc) de forma a perceber se os Modelos Organizativos estão a gerar bons resultados, sem desvirtuar os princípios da MGF.

Os indicadores existentes (que têm servido de base de contratualização com as USF) são indicadores intermédios (do processo / surrogate endpoint) que poderão, ou não, traduzir outcomes/resultados favoráveis.

Existe necessidade de desenvolver investigação instrumental (aliás identificada na Agenda de Investigação Europeia MGF/ EGPRN) de forma a conseguir construir indicadores que de facto meçam o que se pretenda medir (validade), baseada na melhor evidência disponível.

Os indicadores espelham apenas uma parte da actividade duma USF, poderão ou não traduzir resultados favoráveis e poderão não estar baseados nas melhores evidências. Este facto deverá ser tido em conta na contratualização; é necessária uma certa postura de humildade e de abertura para afinar e corrigir estes processos de monitorização.

Por outro lado, as USF não deverão ficar com a sua actividade focada em indicadores, pois existe muito mais vida para além de indicadores. Este é um dos perigos do P4P (pay for performance): centrar a actividade em indicadores e dar menos importância a outros aspectos (outras necessidades de saúde).

Devemos evitar a Medicina Baseada em Indicadores, ie, MGF centrada em indicadores, alguns de validade questionável e não esquecer o essencial: a reforma dos CSP sem desvirtuar a prática da MGF com a qualidade que todos queremos.

Miguel Melo

USF Fanzeres Modelo B - ACES Gondomar

PS: Esta reflexão vem a propósito do Encontro de Vilamoura, nomeadamente a comunicação da MJ Ribas (projectar o futuro) e de outras mesas. Pretende ser um contributo positivo de quem tem contribuído para a melhoria da MGF.

Siglas:

MGF - Medicina Geral e Familiar

USF - Unidade de Saúde Familiar

UCSP - Unidade de Cuidados Personalizados

EGPRN - European General Practice Research Network


Nota: este texto, publicado aqui com a autorização do Dr. Miguel Melo, foi previamente publicado no forum MGFamiliar, no dia 24/03/2010.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

PORDATA - Uma base de dados admirável!


Depois de nos ter brindado com um admirável diagnóstico da situação em "Portugal, Um retrato Social", depois de numerosos artigos de opinião (no Público) cheios de lucidez que nos fazem reflectir e nos apontam múltiplas soluções, depois de um memorável discurso nas comemorações do dia 10 de Junho de 2009, depois de muitas coisas que marcam pela qualidade e que contribuem para um Portugal melhor, António Barreto, em conjunto com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, oferece-nos agora uma ferramenta impressionante e poderosa: PORDATA, uma "base de dados do Portugal contemporâneo". Os dados à disposição de todos, permitindo pesquisas, construção de tabelas, gráficos de uma forma fácil e intuitiva, em português e em inglês. De uma utilidade infinita para todos!

Só me ocorre dizer isto: MUITO OBRIGADO!


Eis o exemplo de um gráfico retirado do PORDATA:




terça-feira, 19 de janeiro de 2010

1º MGF.net Talks



Desde Fevereiro de 2007 que tenho vindo a desenvolver o portal MGFamiliar.net (
www.mgfamiliar.net), um portal dedicado aos médicos de família e também à divulgação de informação sobre saúde para o público em geral. Dado o interesse que os temas versados pelo portal têm vindo a suscitar junto dos médicos, tornou-se pertinente avançar com um novo evento científico.
Com este evento, pretende-se:
- Sensibilizar os colegas para as vantagens do uso das novas tecnologias de informação e comunicação na prática clínica.
- Criar um espaço de formação através de workshops que vá ao encontro das necessidades dos médicos.
- Debater e reflectir sobre o impacto das novas tecnologias de informação e comunicação na relação entre o médico e o paciente.
- Debater o papel dos profissionais de saúde na capacitação dos indivíduos através das novas tecnologias de informação e comunicação (por exemplo, através das redes sociais, e-Health, etc).
Deseja-se que este evento se torne numa referência no panorama científico nacional no que diz respeito a esta temática. Desenhou-se um evento jovial, interactivo e com grande sentido prático. Nesse sentido, não haverá mesas redondas formais. Em vez disso, propomos "Talks": conversas de 15 minutos seguidas de diálogo com a plateia.
No primeiro dia, sexta-feira 28 de Maio, terão lugar os workshops com treino prático. O programa propõe 3 workshops com inscrições separadas do evento. Poderá haver médicos interessados nos workshops que não estejam interessados no segundo dia do evento e vice-versa. O número de inscrições nos workshops terá que ser limitado por razões de logística (nº de lugares disponível na sala).
No segundo dia, sábado 29 de Maio, será o "core" do evento com as
talks, espaços de diálogo e com algumas rubricas características do portal MGFamiliar.net: "O livro que mais me tocou" e "Para além da Medicina".

domingo, 6 de dezembro de 2009

MGFamiliar.net na TSF



Foi, sem dúvida, um dia especial para o MGFamiliar.net. João Paulo Meneses convidou-me para participar no seu programa "Mais cedo ou mais tarde". Foram abordados vários assuntos relacionados com o MGFamiliar.net, mas também o uso das novas tecnologias informação e comunicação na consulta médica.
Gostei da experiência... E o resultado foi excepcional. Nesse dia e nos seguintes, foram batidos recordes de visitas, o que contribuiu para que o mês de Outubro e de Novembro tivessem sido os meses com o maior número de visitas de sempre (11945 em Outubro e 12012 em Novembro). Obrigado a todos e obrigado ao João Paulo Meneses!

O texto respeitante a este programa poderá ser lido aqui.
A entrevista poderá ser ouvida aqui.



domingo, 11 de outubro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Gripe A: acima de tudo, muita calma!




Tradução espontânea do Dr. Rosalvo Almeida (Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, 1990) do texto em castelhano do blogue: http://gripeycalma.wordpress.com/ citado por http://mgfamiliarnet.blogspot.com/

Gripe A: acima de tudo, muita calma!

Durante os últimos meses, os profissionais de saúde que escrevem em blogues, têm dado eco à inquietação que vive a nossa sociedade com a denominada pandemia de gripe A. Os médicos têm verificado nas últimas semanas uma afluência importante de doentes às suas consultas pedindo informações. Também temos visto como alguns documentos e comentários dos blogues saíram do circuito habitual e se difundiram pela Internet. Estes dois factos levaram a que um grupo de profissionais de saúde, cujo único denominador comum é escrever em blogues ou em páginas orientadoras, redigissem a tomada de posição que adiante se pode ler:

O que é a gripe A / H1N1?

A gripe A é uma doença que cursa de forma leve na grande maioria das pessoas. É provocada pelo vírus influenza A / H1N1 do mesmo género que o vírus da gripe comum. Pode dar febre e mais sintomas como dor de cabeça e dores musculares, mal-estar geral, congestão nasal, tosse e às vezes sintomas digestivos (náuseas, diarreia).

A gripe A tem os mesmos sintomas que a gripe de todos os anos.

Como se faz o contágio?

Como a gripe comum, o contágio faz-se muito facilmente porque se transmite através do ar por meio de pequenas gotas que emitimos ao falar, tossir ou espirrar. Quando falamos de “pandemia” queremos dizer que há muitas pessoas afetadas, em muitos países diferentes. Isso deve-se ao facto de se tratar de um novo vírus e, portanto, o contágio é mais fácil.

Mas, por ser muito contagiosa, não quer dizer que seja mais grave.

Como se diagnostica?

Existe um teste diagnóstico rápido para distinguir os tipos de gripe. Mas, para o diagnóstico da gripe A, tem pouca sensibilidade (aproximadamente uns 35%). Isso quer dizer que, de 100 pessoas com gripe A, só detetaremos 35 (teste positivo). Na maioria (65) teremos um resultado negativo para gripe A. Ou seja, ainda que se tenha um teste negativo, se temos os sintomas gripais, a causa pode ser sempre a gripe A.

E o que é mais importante: os cuidados recomendados são os mesmos, independentemente do tipo de gripe. Por esta razão, não há utilidade em fazer um teste diagnóstico numa gripe leve ou moderada.

Como pode evoluir a gripe A?

Com os dados disponíveis dos milhares de casos detetados em todo o mundo até agora, pode-se afirmar que a imensa maioria das pessoas têm esta gripe com sintomas leves ou moderados. Deve manter-se uma vigilância especial sobre a evolução dos sintomas em pessoas com doenças crónicas descompensadas, crianças com menos de seis meses e em doentes com riscos maiores (imunodeprimidos).

Como podemos atuar para prevenir o contágio?

As recomendações básicas são duas:

1. A lavagem frequente de mãos (por exemplo, lavar as mãos 10 vezes por dia diminui a metade o risco de contágio).

2. A higiene respiratória (tossir ou espirrar sobre um lenço de papel descartável e lavar as mãos a seguir, tossir ou espirrar sobre o braço se não se dispõe de lenço para evitar o contacto com a mão, evitar contactos próximos ou íntimos quando os sintomas da doença são evidentes).

Não é claro se o uso de máscaras evita a propagação da epidemia. Só se recomenda o seu uso às pessoas doentes enquanto estão em contacto com outras pessoas, assim como aos seus cuidadores. Igualmente não é claro se o uso de fármacos como oseltamivir (Tamiflu®) ou zanamivir (Relenza®) pode prevenir o contágio. Existem alguns estudos em instituições fechadas e em contactos familiares com benefícios muito pequenos. Tendo em conta que se trata de uma gripe leve e que estes fármacos têm efeitos secundários, em geral, não se recomenda o seu uso.

A vacina contra a gripe comum não funciona para a gripe A. Ainda não está terminada a produção de uma vacina para a nova gripe com garantias totais de segurança e eficácia. A situação atual, em relação com o número de pessoas afetadas e o número de mortes, não justifica alarme social.

Que fazer se aparecem sintomas?

Os sintomas são os mesmos que os da gripe de todos os anos. A gripe, como diz a sabedoria popular, “dura sete dias com tratamento e uma semana sem ele”.

Só as pessoas que tenham problemas graves, exigem assistência médica: dificuldade de respirar, dor importante no peito, alterações da consciência (sensação de atordoamento ou desmaio), agravamento repentino ou agravamento passados 7 dias do início dos sintomas. No caso das crianças, com menos de 6 meses, a respiração acelerada ou a febre que dura mais de três dias (72 horas) tornam recomendável uma avaliação médica.

Contudo, provavelmente, a maior parte das pessoas terão sintomas leves e recorrer ao médico não trará nenhum benefício. Antes pelo contrário: a saturação dos centros de saúde e hospitais pode dificultar uma correta atenção aos doentes graves, por gripe ou por outros problemas de saúde.

Portanto, nas pessoas sãs que apresentem um quadro gripal sem qualquer indicador de complicações pode bastar um autocuidado nos seus domicílios com as medidas habituais: boa hidratação, boa alimentação e boa higiene.

Se alguém está doente, nos cinco primeiros dias, não convém frequentar lugares cheios de gente para evitar contagiar outras pessoas. E recordar as medidas recomendadas: não “tossir sobre” os outros, espirrar na manga ou num lenço de um só uso e lavar as mãos várias vezes por dia.

Se aparecem sintomas, é necessário tomar algum tratamento?

Ainda que a febre não seja perigosa só por si, os antipiréticos como o paracetamol ou o ibuprofeno podem ser úteis para aliviar o mal-estar que esta produz. Os medicamentos antivirais demonstraram muito pouca eficácia nas infeções por vírus gripais comuns, diminuindo em menos de um dia a duração dos sintomas. Em relação a esta gripe não há estudos que demonstrem a sua eficácia.

Por estas razões, o seu uso deverá ser restringido aos doentes que sofram complicações ou àqueles com alto risco de as ter. Numa pessoa saudável, os riscos por efeitos adversos do fármaco podem superar os seus benefícios

E no caso de gravidez?
Sempre se soube que a gravidez pressupõe um pequeno aumento do risco para as complicações da gripe (qualquer tipo de gripe). No caso de febre ou sintomas de gripe, é recomendável consultar com um profissional de saúde. De qualquer modo, o risco continua a ser baixo e a grande maioria das gravidezes decorre de forma saudável.

Conclusão

Durante a pandemia de gripe A continuará a haver enfartes de miocárdio, apendicites, insuficiências cardíacas, diabetes, crises de asma, doenças psiquiátricas, fraturas da anca, acidentes e muitos outros problemas de saúde que requerem atenção dos profissionais da saúde.

O comportamento sereno, paciente e tranquilo dos doentes, dos meios de comunicação, dos profissionais de saúde, dos dirigentes políticos e dos detentores de cargos com responsabilidade na planificação e gestão do Sistema Nacional de Saúde é essencial para que funcionem bem os serviços de saúde e estes se possam dedicar aos doentes que o necessitem.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Decisão partilhada com os pacientes na abordagem do cancro da mama


A forma como a decisão médica é tomada na prática clínica e a relação entre o médico e o paciente tem evoluído ao longo das últimas décadas. Para isso, muito terão contribuído as novas tecnologias e o acesso fácil à informação. Em Portugal, também temos progredido neste sentido. Actualmente, nas Faculdades de Medicina é esta forma de comunicar na consulta médica que se ensina e no Internato de Medicina Geral e Familiar ("especialização" dos Médicos de Família) existe uma abordagem detalhada e cuidada desta temática. Em breve, colocarei aqui um outro texto, da minha autoria, que aborda de uma forma mais estruturada este tema. Por hoje, deixo-vos um excelente exemplo de um site disponível na web e que pretende ajudar os pacientes e os profissionais de saúde a tomar uma decisão partilhada: BresDex - Breast Decision Cancer Explorer http://www.bresdex.com/index2.html

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Se tiver gripe fique em casa... e a baixa?


"Se tiver gripe, fique em casa..." Quando o pico da crise for atingido, esta expressão vai-se ouvir com frequência. E o certificado de incapacidade temporária para o trabalho ( a baixa)? Já terão sido pensadas estratégias para contornar a necessidade de o paciente vir ao consultório para obter a dita baixa?


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Turbilhão

No espaço de poucas horas, recebi muito…

Paciente: Uma mãe feliz com uma bebé dourada de 9 meses: uma menina tão linda e mais saudável que ar puro!

E eu, o médico: …Alegria transbordante!

Paciente: Uma senhora sábia de 82 anos, cheia de “dores nos ossos”, com crises de desfalecimento ainda em estudo, mas ainda com coragem para visitar lares de idosos para animar aqueles que, da mesma idade, estão sós e tristes…

Eu: Preocupado, mas encantado… Quando for “grande”, quero ser assim…

Paciente: Uma menina de 5 anos e meio que me cumprimenta com um beijinho, entra sorridente e vai direitinha ao “puzzle dos cubos”. Para ela, nada é estranho no meu consultório. Lembro-me dela bebé… O peso não aumentava como esperado… Ei-la agora grande e bonita. No próximo Outono vai entrar para a escola: vê bem, está adaptada ao infantário e tem uma boa relação com as educadoras e com as outras crianças. Os pais, esses estão a atravessar uma fase difícil da sua vida conjugal…

Eu: Tristeza… Prognóstico familiar reservado, esta criança vai precisar de apoio psicológico.

Paciente: Quase irreconhecível! Um homem de aspecto robusto e saudável que aceitou todos os conselhos na última consulta há um ano atrás… Deixou de beber bebidas alcoólicas, iniciou actividade física regular, corrigiu a alimentação, emagreceu. Sente-se bem! Vem só por rotina…

Eu: “Salvei uma vida…” Podia não ter corrido tão bem…

Paciente: Um pai com uma filha de 18 anos… “Afinal, aquilo do pescoço da minha filha que o Sr. Dr. enviou para o hospital era mesmo ruim. Já tenho aqui uma carta do IPO e já vai iniciar tratamentos.

Eu: Firme! Firme! Chorei, mas só depois de eles terem saído.

Afinal, um dia normal de consulta, com muito mais pelo meio…

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Obrigado, Dr. Vítor!


Obrigado, Dr. Vítor Ramos, pelo seu excelente livro "A Consulta em 7 passos"! Obrigado pela sua ideia, por ter pedido e ter aceite múltiplos contributos e pela disponibilização do mesmo em
pdf. Obrigado, porque se tornou mais fácil rever alguns aspectos da consulta, porque se tornou mais fácil explicar aos alunos como abordar a consulta e porque os internos sentir-se-ão mais seguros na sua iniciação na consulta. Finalmente, obrigado pelo facto de o considerar uma obra inacabada... 

Não resisto a partilhar com os leitores do meu blogue (alunos de medicina e médicos, que me desculpem os restantes leitores...) dois parágrafos da nota prévia deste livro:

"Este livro propõe uma estrutura e um conteúdo-guia para orientar a realização de consultas de medicina geral e familiar livro. Pode, eventualmente, ser útil para outras especialidades médicas, em especial para as especialidades mais generalistas."

"Durante décadas os estudantes de medicina foram treinados exaustivamente na elaboração de histórias clínicas durante o internamento – seguindo uma estrutura e um guião de conteúdos consolidados ao longo de gerações médicas. Há que manter esse património precioso no cuidar do doente internado. Porém, este modelo é inadequado para consultas realizadas num período de tempo limitado, com tempos médios entre 15 e 30 minutos, mas beneficiando de uma relação de proximidade e de continuidade de cuidados ao longo do tempo. Por isso, a par do treino da história clínica em internamento, é necessário dar igual importância e ênfase ao treino de realização de consultas. Porque as consultas são, de longe, a grande maioria dos actos que a maior parte dos médicos irá realizar ao longo da sua vida profissional."

Obrigado!

domingo, 27 de abril de 2008

Da janela do consultório de um médico de família


Da janela do consultório de um médico de família

Da janela do meu consultório, vejo muita coisa… Eu vejo luz. Uma luz com várias tonalidades que vão alternando entre si. Eu vejo sol, vejo chuva, o azul de um céu límpido e cintilante e vejo brancos mesclados com tons de cinzento pintados pelas múltiplas nuvens que enfeitam as vidas.

Da janela do meu consultório, eu vejo espaços verdes que se escondem atrás das fachadas cinzentas e velhas da cidade. Estes rostos da minha cidade… Ninguém sabe os encantos que eles escondem, nem é fácil descobri-los. É necessário conseguir entrar, passar pelos corredores, de sala em sala, até lá chegar: àquela fresta por onde se consegue espreitar o jardim. E vejo alguns desarranjos, fruto de desgovernos trazidos com o tempo.

Junto à janela do meu consultório, há um pequeno patamar. Por vezes, pousa lá uma gaivota e espreita para dentro. Saúdo-a com os meus olhos, partilho algo e ela segue o seu voo.

Da janela do meu consultório, eu consigo ver as duas torres da Igreja da Nossa Senhora da Lapa. Como dois braços estendidos à cidade, estão sempre lá para dar e receber, disponíveis. E quando chega a noite, da janela do meu consultório, eu vejo luzes e estrelas. Mesmo depois de sugado o dia, ainda se vêem luzes e estrelas. Umas vezes mais cintilantes, outras menos…

Da janela do meu consultório, eu ouço o carrilhão da Igreja de Cedofeita com a sua melodia jovial que me inunda e me conforta. Ouço outros sons… buzinas, sirenes de ambulâncias, o cacarejar dos galináceos, o grasnar das gaivotas… Enfim, um arco-íris de sons: do mais natural ao mais sofisticado. E depois, ouço as crianças que saltam, riem e brincam… gritam. Em certas ocasiões, o barulho é tão intenso que chego a ter que cerrar a janela do meu consultório, para poder mergulhar no som apaziguador do coração: tum-tum… tum-tum… tum-tum…

Para quem não sabe, o meu consultório fica na Rua Miguel Bombarda, na cidade do Porto. Uma rua cheia de pedra, cimento e asfalto. Nesta rua, além do Centro de Saúde, existe um infantário, o café da Sra. Alice, o pomar da D. Leonor, várias galerias de arte… E tudo isto eu vejo e ouço da janela do meu consultório. Provavelmente, se o meu consultório ficasse noutro lugar, veria e ouviria coisas muito semelhantes.

domingo, 13 de abril de 2008

Para reflexão de todos...

Como médicos de família, aprendemos a olhar para o paciente como um ser humano global. Preocupamo-nos com a saúde física, mas também com o bem-estar psíquico e social. Nos últimos anos, tenho vindo a notar um aumento da frequência com que temas como "desemprego", "dificuldades económicas", "dinheiro para comprar medicamentos", "pressão profissional" são trazidos à consulta pelos pacientes. Uma realidade bem diferente da vivida há cerca 6-7 anos atrás.
Neste contexto, vale a pena ouvir com atenção a intervenção do presidente do Banco Mundial.
Hoje, deixo-vos uma notícia e um vídeo para reflexão de todos.
Notícia Publico.pt: FMI alerta para "consequências terríveis" se preços dos alimentos continuarem a subir

Vídeo: Combate à pobreza em risco

Se pretender ver a intervenção do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, na íntegra, pode fazê-lo aqui.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Uma forma de começar, uma forma de comunicar

Este é o meu primeiro "editorialblog". O "editorialblog" do sítio www.mgfamiliar.net . Um editorial porque se assemelhará a isso. Mensalmente, colocarei aqui um texto de reflexão relacionado com os temas abordados no MGFamiliar.net: medicina, medicina geral e familiar, formação pré e s-graduada, saúde em geral... Um blog porque também terá essa característica e os leitores terão a oportunidade de comentar publicamente esses mesmos textos de reflexão. Então, bem-vindos ao MGFamiliar.net editorialblog!
Nesta primeira edição, vou partilhar convosco a história do MGFamiliar.net. O meu gosto pessoal pelas novas tecnologias de comunicação aliou-se à necessidade sentida durante o desempenho da minha actividade profissional, de criar este espaço de comunicação. A minha actividade profissional tem duas facetas diferentes, mas intensamente relacionadas: a de médico de família e a de docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Da função docente, resultou a necessidade concentrar um conjunto de ligações a informação pertinente num único sítio e de acessibilidade fácil. Da função clínica, surgiu a necessidade de recolher sítios com informação sobre saúde com qualidade e disponibilizá-los aos meus pacientes.
Tudo o que veio a seguir, apareceu de forma natural. Construído com o espírito de um passatempo, aproveito normalmente uma nesga de tempo livre, para acrescentar algo aqui, algo ali. O ritmo é lento. Por vezes, escrevo uma frase ou um parágrafo por dia… Outras, nem para isso consigo ter disponibilidade. O meu avô ou o meu pai, quando têm tempo livre, aproveitam para esgravatar um pouco mais na terra. Gabo-lhes o bom gosto! A mim, dá-me para esgravatar no teclado. Da terra, quando reunidas as boas condições, nascem frutos e alimentos deliciosos. Do teclado e deste mundo de partilha global, enfim, tenho esperança de que possam nascer também bons frutos. A ver vamos, a ver vamos…