Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

SNS: casa onde não há pão...

Este post é sobre uma casa onde não há pão, a NOSSA casa. Apresento-vos três pontos de vista. Dois em vídeo e um num texto escrito. Não vão todos no mesmo sentido.
Penso que todos gostaríamos de ter uma saúde gratuita para toda a população. Todos reconhecemos a importância do SNS. Mas, na falta de pão, tenho observado muita gente a opinar, mas ninguém com uma solução.
Neste, como noutros problemas deste Portugal sem pão, o que eu gostaria mesmo era ver uma plataforma de entendimento que abrangesse os principais partidos da esquerda e da direita. A bem de todos, a bem da paz social.
Finalmente, recordo que ainda durante o governo PS, houve uma comissão que estudou a Sustentabilidade do Financiamento do SNS. O relatório final está disponível aqui. Nas conclusões, podemos ler:


«Após a apreciação das várias alternativas de financiamento do SNS, a Comissão recomenda ao Governo: 
1. Manutenção do sistema público de financiamento do SNS, como garantia do seguro básico público, universal e obrigatório, assente no pagamento de impostos. 
2. Adopção de medidas que assegurem maior eficiência na prestação de cuidados de saúde, traduzidas por menor despesa pública em saúde e menor taxa de crescimento. 
3. Utilização abrangente de mecanismos de avaliação clínica e económica para estabelecimento  de prioridades e definição das intervenções asseguradas pelo seguro público.  
4. Revisão do regime vigente de isenções das taxas moderadoras, com uma sua redefinição baseada em dois critérios: capacidade de pagamento e necessidade continuada de cuidados de saúde. 
5. Actualização do valor das taxas moderadoras, como medida de disciplina da utilização  do SNS e de valorização dos serviços prestados.  
6. Redução dos benefícios fiscais associados às despesas em saúde, aproximando a realidade portuguesa  da observada na generalidade dos países da OCDE.  
7. Retirar do espaço orçamental os subsistemas públicos, sendo evoluções possíveis a sua eliminação ou a sua auto-sustentação financeira. »

Fica para reflexão...


Pontos de vista 1 e 2





Ponto de vista 3:

Saúde: Utentes devem comparticipar SNS




Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Acesso dos pacientes à sua informação clínica

Este vídeo dá que pensar... Uma das  principais vantagens da evolução tecnológica dos sistemas de informação passa pelo acesso com qualidade e quantidade à informação, um autêntico processo de "democratização do acesso" à informação. Na área da saúde e da informação clínica, cada vez surgem mais movimentos de pacientes que defendem o acesso fácil à sua informação clínica. O futuro é já ao virar da esquina...

Electronic Health Records (EHRs) Can Save Lives: Regina Holiday's Story ...



Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

MGF.net Talks 2011: foi mesmo um evento especial :)



Foi mesmo um evento especial :)
No conjunto dos dois dias, passaram 104  colegas pelo MGF.net Talks 2011. Foi um número superior ao da edição do ano passado.
No caminho para este evento passámos por dois grandes sustos. O primeiro ocorreu a dois meses do evento, quando verificámos que tínhamos apenas 11 médicos inscritos. Valeram-me a serenidade e a experiência da Ana Montes da Admédic e ainda bem...
O segundo grande susto foi quando me telefonaram na sexta-feira anterior ao evento comunicando que só dispúnhamos de 15 computadores. 15 computadores para um workshop com mais de 50 pessoas inscritas e depois de o evento ter sido anunciado como dispondo de computadores. Nem vos sei descrever o que senti. Felizmente, descobri a Futurdata, uma empresa que aluga computadores e foi a nossa salvação!
Depois destes sobressaltos todos, até me parece que o MGF.net Talks correu bem.  Os workshops foram intensos. Mesmo não dispondo das condições ideais, parece-me que os colegas conseguiram adquirir e partilhar novas aptidões.
O segundo dia, o dia das Talks propriamente dito, bom, esse então foi mesmo especial. Foi tão bom ver o "ar de agradavelmente surpreendidos" dos participantes pelo refrescante e inovador modelo do evento. Foi bom ver toda aquela energia, toda a participação desinibida... Foi bom ver colegas a participar no evento mesmo estando à distância. O webstreaming do evento, inovador no panorama dos congressos médicos em Portugal, no segundo dia resultou muito bem.
Em relação ao futuro, vamos ver...
Obrigado a todos os que apoiaram este evento, obrigado a todos os que nele participaram. 
Um obrigado especial à Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos que investiu desde o princípio na organização deste evento.
Adeus, MGF.net Talks 2011 e, eventualmente, até à próxima :)

Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

"A minha mente tem a história que tem"

Li esta resposta e dei comigo a pensar naquilo que ela exprime. Uma verdade tão simples, mas parece-me implicar um tão profundo conhecimento de si próprio, parece-me ser o reconhecimento de um longo caminho efectuado.
Eis o excerto da entrevista:
"Acha-se livre da esquizofrenia?
Estou livre de sintomas diagnosticáveis. A minha mente tem a história que tem, mas não estou louco. Não pertenço a um asilo de lunáticos."

Pode ler a entrevista na íntegra:



Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

MGF.net Talks 2011: do esforço da sua organização


Nos últimos dias tenho-me desdobrado em reuniões, contactos, mails com múltiplos intervenientes neste evento. Apesar do esforço, nem sempre tenho conseguido levar a bom termo aquilo que desejo para servir melhor os colegas neste evento.

Posso dar-vos como exemplo o desejo de conseguir ter computadores para treino nos workshops. A Megatronica, em boa hora, decidiu apoiar este evento através do fornecimento de computadores portáteis para os workshops. Assim, posso garantir-vos que, pelo menos no workshop de Informática Básica e no workshop das "TICs na prática clínica" teremos 1 computador por formando ou, pelo menos, por dois formandos. Contudo, tem sido bem mais árdua a tarefa de conseguir ter computadores com o SAM ou com o MIM@UF para os respetivos workshops... Ainda na sexta-feira passada tive uma reunião na ACSS: foi-me prometido um esforço nesse sentido, mas a estrutura pesada e antiquada do SAM talvez não possibilite aquilo que todos desejávamos: ter o SAM nos portáteis para os formandos poderem testar e treinar. Talvez seja mais fácil uma solução para o MIM@UF.

Por vezes dou comigo a pensar... todo este esforço poderá ser inglório se os colegas não aderirem e não participarem neste evento...  Afinal, porque é que organizo este evento?

Porque acredito que um evento deste tipo nos faz falta.

Porque acredito que é possível organizar um evento científico com qualidade e com um modelo inovador que facilite o diálogo e a partilha de conhecimentos.

Porque me parece importante este espaço de reflexão sobre tecnologias que nos entram pela porta adentro a uma velocidade tal, que se torna difícil a real perceção do seu impacto em nós e na relação que construímos com os nossos pacientes.

Porque por detrás do MFamiliar.net estão os rostos humanos de todos nós, autores e leitores, e como humanos que somos, vai-nos fazer bem o reencontro.

Um abraço, Carlos Martins

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

International Human Development Indicators

Nos últimos tempos tem sido frequente o aparecimento de plataformas na web que facilitam muito o acesso a dados estatísticos relevantes. Também tem crescido de forma significativa o movimento a favor do "open data access". 
Já aqui falei do excelente Pordata . E agora temos uma novidade da ONU: International Human Development Indicators. Uma plataforma que permite construir gráficos em múltiplos formatos dos indicadores fundamentais que tentam medir o desenvolvimento humano e com dados de quase todos os países do mundo. Excelente!


Eis o exemplo de um gráfico retirado desta plataforma:



Domingo, 11 de Setembro de 2011

A transcrição de exames


Para reflexão de todos, médicos e pacientes, apresento, devidamente autorizado, um texto de António Alvim sobre a transcrição de exames complementares de diagnóstico. Um tema "quente" na actual agenda mediática...


A transcrição de exames
1. Não faz qualquer sentido caber aos Médicos de Família a transcrição de exames para que estes sejam comparticipados pelo SNS. Os Médicos de Família são médicos especialistas como os outros com competências e deveres próprios. No âmbito da sua atividade no SNS, têm a faculdade de prescreverem medicamentos e requisitarem exames de forma comparticipada pelo
SNS.

2. Aquela faculdade é para uso próprio no seguimento dos seus doentes. Não cabe no seu papel a transcrição de exames. Esta não é uma competência técnica. Apenas um abuso de terceiros de uma faculdade que dispõem.

3. Os pedidos de transcrição é o último resquício que ainda resta dos tempos da "caixa" sobre a qual se ergueram infelizmente os CSPs.

4. Todos aqueles que sempre usaram o MF para transcrever nunca se lembraram de reclamar, de forma efetiva, o direito de eles próprios poderem prescrever diretamente de forma comparticipada.

5. E se os privados não dispõem daquela faculdade é porque o legislador não quis. É com o Legislador que se têm de entender os médicos que fazem medicina privada (e a Ordem) e os seus doentes.

6. Se a faculdade da requisição comparticipada é uma necessidade fundamental ao livre exercício da Medicina então em vez de considerar a transcrição um dever dos Médicos de Família, como agora foi feito, aquilo que a Ordem e o seu Bastonário, baseados nos seus deveres e competências, devia fazer era encetar uma luta para que todos os médicos tivessem a faculdade de prescrever de forma comparticipada.

7. A Transcrição não é uma questão de dimensão médica. Não se trata de recusar um cuidado médico. É apenas uma questão financeira. O que está em causa não é o acesso a um exame mas sim sobre o seu pagamento. E cabe ao legislador è à tutela o poder, democraticamente concedido, de definir as regras do jogo tendo em conta o supremo interesse dos cidadãos, em todas as suas vertentes. E aquilo que o decisor político decidiu foi exatamente dar prioridade às questões financeiras e poupar assim algum dinheiro.

8.Aquilo a que se assiste no despacho é a uma proibição dos Hospitais prescreverem exames para fora (até com o aplauso do Bastonário) e em simultâneo a proibição expressa dos Médicos de Família transcreverem pedidos dos Médicos dos Hospitais e da Medicina Privada. Não tendo como vimos acima dimensão médica este despacho é "uma ordem" que os médicos enquanto
enquadrados pelas leis da Função Pública têm de cumprir.

9. Posto tudo isto é preciso saber :
a) Cabe ao Médico de Família o seguimento continuado dos seus utentes visando a manutenção do seu estado de saúde e o diagnóstico e tratamento em caso de doença;
b) Cabe ao Medico de Família requisitar todos os exames que considere necessários;
c) Pode haver coincidência entre aquilo que ele assume como necessário e o que lhe pedem para transcrever.

10. Será preciso bom senso porque o cumprimento escrupuloso da lei levará a uma tensão tal que a implodirá, tornando-a ineficaz. O uso ( agora necessariamente de forma devidamente fundamentada e registada no processo clínico) da alínea c do ponto 9, como válvula de escape, é uma das condições necessárias para o seu sucesso.

11. Mas cabe à ordem questionar muito seriamente o Ministério o que se faz aos doentes para os quais os Hospitais não têm capacidade de resposta enquanto não estiver montado o esquema alternativo previsto no despacho de subcontratarem os exames ao sector privado. Aceitar e defender que os MF devem transcrever os pedidos dos Hospitais é o pior que a Ordem pode fazer. Por um lado torna ineficaz o despacho e por outro aumenta o papel transcritor do MF.

12. Tem sentido que os Médicos privados não tenham acesso à requisição de
MCDTs comparticipados? Sim e não.
a)  Em termos de direitos ao acesso à saúde e à liberdade de praticar medicina , claro que sim, A escolha de um privado é por enquanto um direito. E o exercício desse direito não deve coartar o direito à comparticipação nos exames para esclarecimento da situação clínica. Também o legislador não pode considerar que o Médico Privado prescreve de forma ineficiente e o Médico
Público de forma eficiente. Por outro lado, o recurso aos privados alivia a pressão da procura no SNS e os gastos públicos.
b) A questão porque "Não" tem a haver com duas razões:
- Uma de Ordem Económica. - Se os exames prescritos pela privada passassem a ser todos comparticipados pelo SNS, toda fatia dos MCDTs que é hoje suportada pelos Seguros ou pelo bolso dos privados passava para encargo do SNS., implodindo de vez as suas finanças.
- Outra de natureza de Equidade Social- Seria um estímulo para que as pessoas saudáveis e com dinheiro deixassem de ser clientes do SNS, deixando este para as pessoas sem recursos e logo sem capacidade reivindicativa. Seria passar de um SNS para todos, tendo como padrão a satisfação da classe média para um SNS assistencialista e consequentemente mais degradado .

13. A solução passa por encontrar um sistema que estimule e possibilite a competição entre o sector público e o privado. Mas isso já é outra conversa. Mas não menos importante.
António Alvim, Médico de Família

Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

Hipertensão Arterial - revolução no diagnóstico?

O NICE acaba de publicar uma revisão da sua orientação clínica para a abordagem da hipertensão arterial. Nesta nova edição, apresenta uma recomendação que vem mudar a forma como é efectuado o diagnóstico da hipertensão arterial. Uma mudança na prática clínica que se compreende, que é sustentada na evidência científica e que me parece bem-vinda.
Tradicionalmente, o diagnóstico da Hipertensão Arterial era efectuado pela medição repetida, em diferentes ocasiões, dos valores da pressão arterial. A partir de agora se o paciente apresentar valores superiores a 140/90 mmHg, recomenda-se a realização de um MAPA (Monitorização Ambulatória da Pressão Arterial).
Através desta medida, evita-se o diagnóstico desnecessário de pacientes que apresentam o efeito da bata branca (valores mais elevados da pressão arterial no consultório) e evitam-se os danos que daí poderiam advir: tratamentos desnecessários, consultas desnecessárias, efeitos secundários dos tratamentos, exames complementares de diagnóstico desnecessários.
Esta é uma recomendação sensata e que se adequa aos bons princípios da prevenção quaternária, em defesa da segurança do paciente. 


À atenção do Ministério da Saúde: justificar-se-á equipar as UCSPs/USFs com equipamentos de MAPA? O que será mais rentável: manter este exame através de serviços convencionados ou realizar este exame nas Unidades de Cuidados de Saúde Primários do SNS? 




A guideline original (em inglês) pode ser lida aqui: http://www.mgfamiliar.net/NICEHTA.pdf
Artigo relacionado: Cost-effectiveness of options for the diagnosis of high blood pressure in primary care: a modelling study





Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Inovação Social



Esta é a melhor homenagem que posso fazer a Diogo Vasconcelos. Independentemente das questões políticas ou partidárias, vale a pena ouvir esta apresentação. Diogo Vasconcelos apresenta-nos uma visão estratégica, notável mesmo, sobre o impacto que a inovação tecnológica pode ter na inovação social.
Em Medicina, falamos frequentemente de "decisão partilhada com os pacientes", cada vez ouviremos mais falar de "sociedade partilhada", "open data", "decisões políticas partilhadas com os cidadãos" ou "cidadania partilhada"... A inovação tecnológica será apenas o instrumento para uma inovação bem mais importante: a "inovação social". Será este o caminho para a reforma do Estado Social? Para a reforma do "Modelo Social Europeu"? Penso que sim.
Obrigado, Diogo Vasconcelos.

Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Exame periódico de saúde: controvérsia



Partilho neste post um texto escrito por um grupo de Médicos de Família a propósito de um artigo do jornal Público: Orientação sobre frequência de exames médicos gera protestos de especialistas


Concordo inteiramente com os colegas: mais do que critérios económicos, são critérios científicos que devem guiar as escolhas de exames complementares de diagnóstico nas chamadas "consultas de rotina" (tecnicamente: exame periódico de saúde). Na verdade, os exames médicos podem ter vantagens, mas também podem ter riscos e malefícios, sobretudo se aplicados mais frequentemente e em idades mais jovens do que o recomendado. Muitas vezes, o especialista em Medicina Geral e Familiar desempenha o papel de provedor do paciente, partilhando a informação sobre os benefícios e os riscos de determinados procedimentos para em conjunto se tomar a decisão. Na verdade, não é tanto uma "questão de poupar" (como se isso fosse mau), mas é mais uma questão de proteger a saúde do paciente evitando danos desnecessários que lhe podem ser causados por testes, exames, rastreios desnecessários... Mesmo que isso vá contra a corrente de uma certa opinião pública ou de outros especialistas...

O documento da USF Marginal referido no texto está disponível aqui.
O documento do ACES Lisboa Norte que deu origem ao artigo do Jornal Público está disponível aqui.


Eis o texto:
«O Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Norte (ACES-LN) divulgou junto dos seus profissionais um conjunto de recomendações sobre avaliação periódica de pessoas saudáveis. Esse documento foi objecto de críticas por parte de responsáveis de três prestigiadas organizações médicas portuguesas nas áreas da oncologia, cardiologia e diabetologia. Dessas críticas deu notícia o "Público" no dia 20 de Maio último (texto em anexo). Esses especialistas transmitem ainda a sua opinião quanto à população abrangida e periodicidade dos gestos propostos nessas recomendações. De um modo geral os referidos especialistas propõem intervenções que atingem mais pessoas e são executadas com maior frequência. Um deles diz compreender "que é preciso poupar"; outro sugere que na base das recomendações existem critérios "economicistas" e que aquelas terão sido escritas "numa perspectiva dos médicos de saúde pública, que são os que não vêem os doentes".

Acontece que o documento divulgado pelo ACES-LN é um trabalho realizado pelos médicos de família da USF Marginal, em Cascais, e por estes distribuído junto da população por eles servida. São médicos com actividade clínica diária, estão envolvidos em actividades formativas e de investigação e têm carreiras profissionais e académicas prestigiadas. As recomendações por eles redigidas e disseminadas no ACES-LN têm como base a melhor e mais robusta evidência científica disponível hoje. O mesmo não pode ser dito das recomendações dos três especialistas citados na notícia, aparentemente assentes na sua experiência pessoal e sem indícios de qualquer fundamentação.

Este fenómeno não é novo nem exclusivo de Portugal. Os especialistas de topo lidam com situações clínicas mais graves e complexas, o que os leva a endurecer a sua atitude na luta contra as doenças das suas áreas de especialização. As organizações que os representam tendem a propor mais exames, a mais pessoas e com menores intervalos entre as observações. Essa atitude, ainda que compreensível, não tem muitas vezes suporte científico consistente; pelo contrário, sabe-se que o excesso de exames resulta em aumentos por vezes dramáticos do número de pessoas erradamente diagnosticadas como tendo um problema de saúde; esses diagnósticos em excesso, conhecidos como falsos positivos, resultam em mais exames, quase sempre mais agressivos, em ansiedade escusada para as pessoas afectadas e, em algumas situações, em tratamentos de resultado no mínimo duvidoso. Fazer muitos exames e muitas vezes pode fazer mais mal que bem à saúde.

Ao contrário do que é sugerido pelos especialistas referidos na peça do Público, não são motivos económicos mas clínicos e técnicos que estão na base das recomendações efectuadas. Trata-se não de poupar dinheiro, mas de oferecer às pessoas o melhor que a ciência oferece, sem nunca se perder de vista que essa ciência tem limites. As referidas recomendações, repetimos, estão ancoradas no melhor conhecimento científico presente. Devem ser aplaudidas e disseminadas.

Armando Brito de Sá

Médico de família e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Jaime Correia de Sousa
Médico de família e professor da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho
José Augusto Simões
Médico de família e professor da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

Luís Filipe Gomes
Médico de família e professor do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina da Universidade do Algarve

Luís Rebelo

Médico de família e professor da Faculdade de Medicina de Universidade de Lisboa
Isabel Santos
Médica de família e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa 

Vasco A. J. Maria
Médico de família e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa»

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Medicina centrada em indicadores


Vem este meu texto a propósito de um excelente artigo de opinião publicado por Miguel Melo e Jaime Correia de Sousa na última edição da Revista Portuguesa de Clínica Geral:


O artigo levanta de uma forma bem estruturada alguns dos aspectos que urge resolver rapidamente na forma como as equipas de Cuidados de Saúde Primários estão a trabalhar em Portugal. Sim, porque esta discussão diz respeito a todas as equipas, quer aquelas que trabalham em Unidades de Saúde Familiares, quer as que estão em Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados. Indo ainda mais longe, como referem os autores, esta problemática acaba por se reflectir na própria população e na qualidade de cuidados que os nossos pacientes recebem.
O actual modelo de pagamento por desempenho, o actual conjunto de Indicadores de Desempenho e a metodologia seguida pelas entidades de contratualização promove  a "focalização e o afunilamento da prática clínica". Ou seja, promove uma prática clínica orientada para as metas que têm  que ser atingidas para cada indicador em detrimento de uma prática clínica centrada no paciente. Por outras palavras, neste momento, é significativo o risco de um paciente ver o seu médico de família muito preocupado com determinados procedimentos, por exemplo certos rastreios oncológicos em certos grupos etários, e menos preocupado em atender às queixas que realmente levaram o paciente à consulta.
Este tipo de problema não é um exclusivo nacional. Na verdade, ele é típico dos Sistemas de Saúde em que foram implementados sistemas de pagamento por desempenho. Há algumas semanas ouvi uma colega inglesa relatar a seguinte situação:
Uma paciente de 68 anos com dificuldades de mobilização por problemas osteoarticlulares recebeu em casa um convite para se deslocar ao Centro de Saúde para um exame periódico de saúde incluindo alguns rastreios. A filha foi ao Centro de Saúde e efectuou a seguinte pergunta ao médico: Esta consulta que aqui é proposta à minha mãe é no interesse de quem? Da minha mãe ou vosso?




Domingo, 8 de Maio de 2011

A Saúde no Memorando de Entendimento com a Troika


Em Agosto de 2009, tive a honra de representar a APMCG num Congresso comemorativo do 20º aniversário do SUS (Sistema Único de Saúde, o "SNS" do Brasil). Na altura, em conversa com os colegas brasileiros senti que havia algum ressentimento em relação ao FMI... Consideravam eles que o FMI tinha sido o grande culpado pelo atraso no desenvolvimento de Sistemas de Saúde orientados para os Cuidados de Saúde Primários nos países da América do Sul. 
Contudo, sabemos que neste mundo, quase tudo pode evoluir e foi com alegria que li os parágrafos que se seguem no Memorando de Entendimento. Fiquei satisfeito por nele ser defendido um reforço dos Cuidados de Saúde Primários e a preocupação com uma boa acessibilidade aos mesmos pela população.


Primary care services
3.69. The Government proceeds with the reinforcement of primary care services so as to further reduce unnecessary visits to specialists and emergencies and to improve care coordination through:
i. increasing the number of USF (Unidades de Saúde Familiares) units contracting with regional authorities (ARSs) using a mix of salary and performance-related payments as currently the case. Make sure that the new system leads to reduction in costs and more effective provision; [Q3-2011]
ii. set-up a mechanism to guarantee the presence of family doctors in needed areas to induce a more even distribution of family doctors across the country. [Q4-2011]

Poderão ler o texto completo do Memorando aqui: http://www.box.net/shared/a88l22q4if

Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Declaração de Salzburgo sobre "decisão partilhada com os pacientes"



Apelamos aos médicos para:
- Reconhecerem que têm um imperativo ético para partilhar decisões importantes com os pacientes
- Estimularem o fluxo bidirecional de informação e encorajarem os pacientes a fazer perguntas, a explicarem a sua situação, e a expressarem as suas preferências pessoais
- Fornecerem informações precisas sobre as opções e as incertezas, benefícios e malefícios do tratamento, em conformidade com as melhores práticas de comunicação de risco
- Adequarem a informação às necessidades de cada paciente, permitindo-lhe tempo suficiente para analisar as suas opções
- Reconhecerem que a maioria das decisões não têm que ser tomadas imediatamente, e dar aos pacientes e aos seus familiares os recursos e ajudar a tomar decisões

Apelamos aos médicos, investigadores, editores, jornalistas e outros para:
- Assegurarem que a informação que fornecem é clara, baseada em evidência científica actualizada, com - a devida declaração de interesses

Apelamos aos pacientes para:
- Falarem sobre as suas preocupações, dúvidas, e sobre o que é importante para eles
- Reconhecerem que eles têm o direito de ser um participante igual nos seus cuidados
- Procurarem e utilizarem informação sobre saúde de alta qualidade

Apelamos aos decisores políticos para:
- Adotarem políticas que incentivem a prática da decisão partilhada, incluindo a sua medida, como um estímulo para a melhoria
- Alterarem as leis do consentimento informado leis de forma a contribuir para o desenvolvimento de capacidades e ferramentas para a prática da decisão partilhada

Porquê
- Grande parte dos cuidados que os pacientes recebem baseiam-se na capacidade e disponibilidade individual dos clínicos para os fornecer, em vez de padrões amplamente acordados das melhores práticas ou das preferências dos pacientes.
- Os clínicos são muitas vezes lentos em reconhecer até que ponto os pacientes desejam ser envolvidos no entendimento dos seus problemas de saúde, em saber as opções disponíveis para eles, e na tomada de decisões que tenham em consideração as suas preferências pessoais.
- Muitos pacientes e as suas famílias têm dificuldade em tomar parte activa nas decisões de saúde. Alguns não têm confiança para questionar os profissionais de saúde. Muitos têm apenas uma compreensão limitada sobre a saúde e os seus determinantes e não sabem onde encontrar informações claras, confiáveis ​​e de fácil compreensão.



Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Informação médica orientada para os pacientes

A forma como a informação médica é apresentada, tendo como exemplo um simples relatório de análises clínicas ou de um exame radiológico, deixa muito a desejar do ponto de vista do paciente. Thomas Goetz, um jornalista da área da saúde com mestrado em Saúde Pública, apresenta-nos as suas ideias sobre como deverá evoluir a informação médica orientada para os pacientes... Uma Talk a não perder ;)




Veja aqui um exemplo do novo "design" de apresentação da informação médica referido por Thomas Goetz na Talk (clique na imagem para a visualizar):


Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Receita electrónica obrigatória, tudo menos simplex :(

A partir de 1 de Março deste ano será obrigatória a prescrição em Receita Electrónica. Ora, 1 de Março, está a bater à porta e, ao que parece, o Simplex ainda não chegou a este processo. 


Desde o momento que o médico decide comprar um determinado software até poder, efectivamente, passar uma receita electrónica irá decorrer um período que leva, em média, entre 1 mês e 1 mês e meio! Nesse período, terão que ocorrer uma série de passos administrativos que envolvem:
- registo na Comissão Nacional de Protecção de Dados e respectivo pagamento de 60,00 €
- Envio de documentação para a ACSS
- Envio, pela ACSS, do código local de prescrição
- Impressão de uma receita com o código local de prescrição
- Novo envio de documentação à ACSS
- Envio, pela ACSS, dos dados relativos ao Sistema de Conferência de Facturas
E só depois, 1 mês a mês e meio depois, o médico pode prescrever em receita electrónica.


Ora, este mês e meio de demora pode ser um obstáculo real à concretização desta medida. A grande maioria dos médicos não tem consciência desta demora que, em boa verdade, parece ser pouco justificável à luz das novas tecnologias. Isto quer dizer que os médicos terão no máximo esta próxima semana para iniciar todo este processo de forma a conseguir ter o sistema de prescrição electrónica pronto a funcionar no dia 1 de Março.


De forma a facilitar a tarefa de opção fica aqui a lista dos programas de prescrição electrónica certificados pela ACSS:


Glintt - Healthcare Solutions, S.A. - SGICM-P (versões; 3.1.1 e 4.1 ) / Higia Medical Software 


ALERT Life Sciences Computing, S.A.- Módulo de Prescrição Medicamentosa - Alert


MedicineOne 


QUIDGEST  PRACTIS - Prescrição Racional de Medicamentos


HIS, E-Health Innovation Systems, Lda Módulo de prescrição Electrónica VITACARE


Manuel da Conceição Gonçalves Mesquita  - Gestão Hospitalar Prescrição Electrónica
Link: não encontrado


Evolute - Consultoria Informática, Ld.ª EvoluteFarma


Cimplecare, Lda. - iReceita / iCare EHR


Hewlett-Packard Portugal HP-HCIS Prescrição Electrónica de Medicamentos
Link: não encontrado


Mobilwave - Tecnologias de Informação, S.A. DOCbase - Receita electrónica


Siemens, S.A.  Siemens e-Prescription
Link: não encontrado


Infortucano  - CardioBase

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

O novo Windows Phone 7

Há dias, participei num evento, o 6º Seminário PocketPT, nas instalações da Microsoft Portugal em Oeiras. O evento foi sobre o Windows Phone 7, a nova aposta da Microsoft para smartphones e que vem substituir os tradicionais Pocket PC baseados no Windows Mobile.
O Windows Phone 7 parece promissor, tem um design interessante, de fácil utilização e baseia-se em princípios básicos já em vigor na concorrência, nomeadamente nos Android e nos iPhone. Por exemplo, funcionamento baseado na nuvem e a garantia da qualidade das aplicações através da centralização do seu fornecimento no Windows Marketplace (semelhante à AppStore para os iPhone).
Contudo, há alguns aspectos que convém ter em consideração para nós, médicos, que utilizamos esta ferramenta como um instrumento de trabalho e de apoio à pratica clínica:


1. O Windows Phone ainda não está completamente funcional em Portugal. Isso só acontecerá durante o ano 2011, quando forem lançados novos equipamentos com o software em português. Assim sendo, quem adquirir agora um Windows Phone, terá que criar uma conta Hotmail e colocar como país de origem o Reino Unido ou os EUA. Além disso, para adquirir aplicações terá que usar um cartão de crédito que tenha como base operacional um desses países.


2. As aplicações que actualmente correm no Windows Mobile não correm nos novos Windows Phone :( As aplicações médicas mais utilizadas como o Epocrates, o Mobile Merck Medicus ainda não dispõem de aplicações para o Windows Phone. É quase certo que serão produzidas a breve prazo...


Conclusão:
Por todas estas razões, por enquanto, parece-me prematuro adquirir um Windows Phone pois não conseguiremos, como médicos, que se transforme numa ferramenta auxiliar à nossa prática clínica. Contudo, no futuro, estes equipamentos poderão vir a ser interessantes... Até lá, a nós médicos, resta-nos as seguintes alternativas: iPhone, Android, Blakberry e os antigos Windows Mobile que, a breve prazo, irão deixar de ser produzidos.
Vídeos relacionados:







Domingo, 5 de Dezembro de 2010

A evolução do mundo nos últimos 200 anos

Depois das suas "talks" espectaculares no TED Talks, Hans Rosling, um estatístico sueco, continua a mostrar-nos o mundo de uma forma diferente do habitual... E coloca o seu software e bases de dados à disposição de todos: o "Gapminder". "The Joy of Stats"


O Gapminder faz lembrar a "nossa" excelente ferramenta "PORDATA"... Ainda bem que dispomos destas ferramentas :)